Quem não quer nada?

Por Rafael Lima

Eu organizei um pré-vestibular comunitário na UFRJ entre 2003 e 2008. Durante esse período, eu visitei dezenas de escolas estaduais para divulgar e trazer alunos para o projeto. Nessa de ir entrando em escolas, conversava com muitos diretores e professores – nessa época eu ainda não era professor, estava cursando informática na UERJ – e ouvia muitas vezes de professores algo do tipo “Ih, perda de tempo vir falar de pré-vestibular para esses garotos, eles não querem nada não”

A Escola Mendes de Moraes na Ilha do Governador foi recentemente ocupada por alguns alunos (Não vou entrar no mérito dessa ocupação, que precisa ser discutida de forma mais aprofundada do que esse texto poderia se propor), e ouvi um dos alunos desse movimento recentemente dizer algo como “Os professores não se importam com a gente, eles não dão aula direito para gente, não querem nos ensinar”

Parece aquela propaganda antiga do segredo de Tostines… “Os alunos não querem nada porque o professor não se importa, ou o professor não se importa porque os alunos não querem nada?”.

Eu sei, sem sombra de dúvidas, que não é verdade que os alunos “não querem nada”. Eles querem muitas coisas, só não querem o que a escola está oferecendo. Por outro lado, como um professor pode oferecer algo que vá além do “Conteúdo no quadro -> decorem -> façam provas -> tirem notas”, nas condições em que trabalham? O professor precisa repensar sua prática, a escola precisa dar sentido à sua existência, contextualizar a sala de aula, o professor precisa conhecer e ouvir os seus alunos…

… mas como fazer isso com turmas de 40, 45, 50 alunos? Como fazer isso quando o professor pode chegar a ter 10, 12, 15 turmas desse tamanho? Como se pode pedir a um professor que conheça todos os seus 600 alunos que ele pode vir a ter num único ano (E eu estou sendo otimista aqui, não é difícil encontrar relatos de professores que chegam a ter 1000 alunos em um ano).

Eu preciso dizer que eu sempre estive numa posição confortável nesse ponto. Nunca lecionei em escolas públicas (no máximo em projetos pontuais dentro de instituições públicas), e creio que nunca tive mais de 100 alunos num mesmo ano. Talvez fosse possível fazer um trabalho diferenciado tendo 400 alunos (eu já tive turmas de 30 alunos),  talvez não fosse. Mas ainda que seja, certamente não seria um trabalho fácil, e não deveria ser assim tão difícil assim para o professor. Ainda mais: não se poderia naturalizar essa realidade simplesmente porque “não é impossível”. Não é impossível acertar duas vezes seguidas na Mega-Sena, mas… caramba né!?

Ainda assim, é necessário lembrar que esse não é o caso de todos os professores que estão dentro das escolas hoje, e que esse movimento de ocupar as escolas deveria estar recebendo amplo apoio dos professores, para que essas transformações necessárias fossem construídas em conjunto e para que os professores pudessem aproveitar o momento para se aproximarem de seus alunos e de os ouvirem. Esse seria um caminho interessante para uma nova organização na escola.

 

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